domingo, 16 de outubro de 2016

     Bancarrotas Portuguesas




Oficialmente a 1ª bancarrota ocorreu em 1560 durante a regência da viúva de D. João III e a última, no final da monarquia, acabou com uma reestruturação da dívida soberana cuja negociação durou 10 anos. Na realidade, podem-se contabilizar 8: 1560, 1605, 1834, 1837, 1840, 1846, 1852 e 1892, ou seja, a maioria já no século XIX.

     A parte final da dinastia de Bragança acumularia, entre 1828 e 1892, mais de duas décadas de situações de default, um recorde na história económica portuguesa. No entanto, o campeão das bancarrotas foi Espanha, com 12 episódios, concentrados na dinastia filipina e durante o século XIX.
     Dois outros momentos que fazem parte da história das bancarrotas de Portugal, apesar de não estarem catalogados como tal, são o período de hiperinflação no reinado do fundador da dinastia de Avis no final do século XIV e o aviso de bancarrota em 1544 através da feitoria portuguesa em Antuérpia ainda no reinado de D. João II.

1384-1422: Mestre de Aviz, o campeão da hiperinflação
     Um real de prata valia 19 vezes menos do que no tempo do reinado do seu meio-irmão D. Fernando, o último monarca da dinastia afonsina, e a inflação era galopante, tendo os preços quintuplicado.
A bancarrota seria certa se D. João I e os seus conselheiros não tivessem decidido, desde as reuniões em Torres Vedras em 1412, desencadear um processo de projecção externa cuja primeira operação viria a ser a conquista de Ceuta, em Marrocos, em 1415. Seguiu-se depois o intensificar do corso atlântico e finalmente a expansão marítima – os Descobrimentos.
Um balanço daquela época de economia de guerra e de crise até 1422: a desvalorização do marco de prata foi da ordem dos 100.000% face ao valor que tinha em 1383.


1544: A quase bancarrota na Flandres


     As dívidas na feitoria de Antuérpia, na Flandres, somavam 3 milhões de cruzados. D. João III salvou-se de ser o primeiro monarca português a decretar a falência do Estado. Os mercados financeiros europeus deram o benefício da dúvida pois o comércio das especiarias que vinha de além-mar era, ainda, atraente. Entretanto, a feitoria na Flandres seria fechada em 1549 e o rei morreria em 1557. Os problemas seriam herdados pela viúva, Catarina da Áustria.

1560: A herança que a viúva recebeu: o 1º default oficial

     Durante a regência caiu-lhe em cima a bomba da dívida astronómica. O neto Sebastião ainda era demasiado novo e coube-lhe a ela gerir a emergência da decadência do grande império manuelino. Em 1559 ainda foi possível levantar 900 mil cruzados como adiantamento na Flandres o que acalmou os credores da dívida portuguesa. Mas no ano seguinte já não havia volta a dar. Catarina resolveu "imitar" o sobrinho, Filipe II, que inaugurara em 1557, no país vizinho, a moda das bancarrotas ibéricas. O alvará de 2 de Fevereiro de 1560 representa o 1º default oficial português. Mandava cessar o pagamento de juros a cargo da Casa da Índia, proibia a colocação de novos empréstimos.
Na ponta final da dinastia de Aviz, nos reinados de D. Sebastião e do cardeal Henrique, as obrigações do governo português já se negociavam a 45 e até a 40% do seu valor facial. Pela época, as grandes casas financeiras alemãs e italianas que estiveram envolvidas no que parecia ser um excelentíssimo negócio, o da pimenta, foram varridas por uma vaga de falências.

 1605: o default com sabor castelhano
    O motor da venda de títulos pela Fazenda Real - que se tornara uma rotina desde os tempos de D. Manuel - começou a gripar pelos anos de 1600. A pimenta deixara de ser monopólio dos portugueses com a desagregação do império português no período filipino de monarquia dual entre Espanha e Portugal e sobretudo depois do início da ofensiva dos holandeses no Índico.
Foi neste contexto que ocorreu a bancarrota de 1605 - uma peripécia menos conhecida e raramente referida.

1828-1834: A factura do "miguelismo"
     Com a morte de D. João VI em 1826, abre-se uma crise de sucessão que desaguou numa guerra civil entre liberais constitucionalistas e conservadores miguelistas que se agrupavam em torno da viúva Carlota Joaquina e do filho Miguel.
No meio da guerra civil, D. Miguel negociou em 1832 um empréstimo de 40 milhões de francos junto dos banqueiros parisienses Outrequin & Jauge, com um juro de 5% com uma maturidade a 32 anos. Apesar dos riscos envolvidos, os banqueiros franceses conseguiram que estes títulos fossem admitidos para cotação na Bolsa de Paris, onde, aliás, se mantiveram até 1837. Os credores internacionais que emprestaram ao governo de D. Miguel sabiam que estavam correr um grande risco pois estavam a apostar num governo com a possibilidade de cair.
     Os juros e a amortização ainda foram pagas até Setembro de 1833. Depois, derrotado Miguel, o empréstimo viria a ser renegado pelos liberais e depois pelo governo de Dona Maria da Glória, sobrinha de Miguel. O empréstimo não foi considerado legítimo. Eram contas do tio que, entretanto, fugira para a Alemanha. Que o fossem cobrar à Baviera, onde ele morreria.

     O assunto passou, assim, a contencioso. Os credores franceses organizaram-se em comité em 1840 e várias manobras diplomáticas continuaram pelas décadas seguintes a ver se conseguiam reaver pelo menos 2,5 milhões de francos, cujos papéis comprovativos consta que se encontravam no Tesouro em Lisboa.


1837 A 1852: O calvário de incumprimentos no reinado de Maria da Glória

     O reinado da filha de D. Pedro IV (o imperador Pedro I do Brasil), a jovem Maria da Glória, coroada D. Maria II (1837-1853), juntou vários eventos de suspensão de pagamentos, o primeiro logo em 1837, que geraram o período mais longo de defaults na história portuguesa.
Em 1852, decreta-se a consolidação da dívida interna e externa, o que gerou a revolta sobretudo dos credores ingleses, até que se celebrou um convénio em Dezembro de 1855, que no dizer do historiador Rui Pedro Esteves, da Universidade de Oxford, surpreenderia hoje pelos credores "terem aceitado a consolidação em troca de contrapartidas bastante modestas".
     Estas bancarrotas ocorreram num período de quase 20 anos de golpes e contra-golpes e de um movimento popular, a Revolta da Patuleia, mais conhecida por Maria da Fonte.
A situação só acalmou, de facto, com a regência do viúvo de Maria da Glória, o rei-consorte Fernando II, da poderosa casa europeia de Saxe-Coburgo e Gota. O país adopta o padrão ouro que permitia estabelecer uma relação com a libra esterlina, a moeda chave do comércio internacional e das relações comerciais com Portugal, e chega a acordo em Londres nos finais de 1855, com o Council of Portuguese Bondholders (detentores de títulos portugueses), liderado pelo banqueiro Richard Thornton.


1892-1902: A longa re-estruturação da dívida soberana no final da Monarquia

A famosa revista inglesa The Economist andava a avisar desde 1880: "Os mercados monetários da Europa estão a ficar cansados, e não sem razão, da constante solicitação por Portugal de novos empréstimos", escrevia em 27/11/1880. E em 1885: "No próprio interesse de Portugal era preferível que as suas facilidades de endividamento fossem, agora, restringidas".

  Rebentou então uma crise financeira mundial, com o epicentro na City londrina, iniciada em 1890 com a falência do banco Baring Brothers que contagiaria Portugal por vários canais, incluindo via Brasil. O próprio Baring era o principal parceiro do governo português na City e, na aflição, reembolsou-se em 1 milhão de libras em Lisboa, o que levou a uma redução significativa das reservas em ouro do Banco de Portugal. Em 1888, no Fenn's Compendium, Portugal já tinha sido considerado como um país de alto risco. Com a contracção dos mercados de capitais internacionais, durante a crise financeira mundial de 1890-1893, o ecossistema financista português desabou. Juntou-se o esboroamento do padrão-ouro que havia sido adoptado em 1854. Finalmente, viveu-se uma crise política aguda que misturaria o efeito dos problemas geopolíticos em África - com o ultimatum sobre o mapa cor-de-rosa por parte da Grã-Bretanha - com a ascensão do movimento republicano (revolta no Porto em 31 de Janeiro de 1891) e das lutas dentro dos partidos monárquicos.

     A balança de pagamentos acaba por ter um défice gigante em 1891, depois de um período em que acumulara excedentes. A dívida total (externa e interna) que andava pelos 24 milhões de libras em 1858 disparou para 127 mil milhões de libras. Apesar da pobreza do país, era a 2ª maior da Europa per capita, depois da França.

     A revista inglesa, de novo, escrevia: "Tem sido evidente de há bastante tempo que o país estava a viver acima dos seus meios. Mais tarde ou mais cedo era inevitável que acabasse em bancarrota - e foi à bancarrota que Portugal agora chegou" (6/2/1892). E acrescentava: "É inevitável uma redução significativa do encargo com a dívida, que absorve quase metade da receita total. Os detentores da dívida portuguesa têm de consentir num abatimento dos seus direitos, por força das circunstâncias". Os ingleses aconselhavam mesmo: "Se Portugal abordar os seus credores leal e francamente nestas linhas ser-lhe-á relativamente fácil efectuar um acordo razoável com eles".


      A solução acabaria por ser imposta por decreto. Os credores externos não aceitaram o curso forçado do papel-moeda emitido pelo Banco de Portugal. O default parcial acabaria por acontecer em Junho de 1892. O governo teve de suspender parcialmente os encargos altos da dívida. Em Paris, os credores ficaram surpresos com a redução das taxas de juro em 66%. O objectivo último acabaria por ser a reestruturação e reescalonamento dos pagamentos.
Julgava-se que no final do convénio de 1902 com os credores se obteriam novos empréstimos - mas isso não aconteceu. A dívida seria convertida num novo empréstimo amortizável a 99 anos, até 2001.
     O efeito de afastamento dos mercados financeiros internacionais não seria muito prejudicial para a economia real, que dependia sobretudo do comércio com o Brasil, as colónias em África e o Reino Unido. Os principais credores financeiros da dívida estavam em Paris e em Berlim. A economia portuguesa acabaria por recuperar relativamente bem.


terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

O mistério da vida de William Shakespeare

     William Shakespeare


     Seguindo o velho ditado que diz: - “por detrás de um grande homem, há sempre uma grande mulher “. Certos historiadores, defendem que, «Anne Hathaway, primeira mulher, era na realidade a autora dos textos que, posteriormente, o seu marido editava em londres para os colocar em cena.»
     William Shakespeare, embora a sua data de nascimento seja desconhecida, admite-se a 23 de Abril de 1564, com base no registro de seu baptizado, a 26 do mesmo mês, devido ao costume, à época, dos ingleses serem baptizados três dias após o nascimento. O seu misterioso desaparecimento, dado como falecido a 23 de Abril de 1616).
      Miguel Cervantes,- (29 de Setembro de 1547 -23 de Abril de 1616). Faleceu no mesmo dia de Shakespeare, e devido às similitudes dos dois poetas dramaturgos, e a coincidência da mesma data de falecimento, o escritor Carlos Fuentes (1928-2012) sugeriu que Shakespeare e Cervantes eram a mesma pessoa.

     Alguns estudiosos e pesquisadores acreditam na hipótese de que Shakespeare não seja realmente o autor das próprias obras, discutindo a questão da identidade de Shakespeare.
     A escritora norte-americana atribui algumas obras de Shakespeare a seu homónimo sir Framcis Bacon (1561 – 1626) 1°. Visconde de Alban, - Ensaísta, filósofo e estadista.
 
     O que sabemos é que Shakespeare foi o apogeu que revolucionou a história da literatura inglesa e universal. E, que fora a estrela da companhia de teatro de Lord Camberlain, sem que haja documento ou manuscrito assinado pelo seu punho, e com sua letra.
     Nunca apareceram das provas evidentes de que seja autor de “Hamlet.” 
     Não existem referências escritas por parte de terceiros, que ligasse o Shakespeare de Stratford-Upon-Avon de origens humildes, filho de John Shakespeare industrial e comerciante de peles.

 O registo de casamento com «Anne Hathaway, em 1582, do qual nasceram três herdeiros, registado no seu testamento em que não fora nada generoso com sua esposa, deixando-lhe a sua «segunda melhor cama» que, se pode supor que após da sua morte, vivessem separados.
 Sem que nada se saiba durante os primeiros dez anos de casamento. em 1592, aparece  instalado em londres     

  A morte de William Shakespeare envolve mistério. De acordo com os testemunhos da sua época, o seu desaparecimento causou grande impacto entre os seus contemporâneos. O seu legado é divulgado em 1737 com uma herança demasiado pobre para um homem tao celebre.


Os restos mortais de Shakespeare foram sepultados na igreja da Santíssima Trindade (Holy Trinity Church) em Stratford-upon-Avon onde se pode ler um epitáfio na sua lápide, que anuncia a maldição de quem mover seus ossos. – A razão para desconfiança!

quinta-feira, 27 de março de 2014

Joana da Gama

Joana da Gama – (Viana do Alentejo, 1520?- Évora, 1586)

Joanna da Gama. Naceo em a Villa de Viana do Alentejo de Pays nobres quais erão Manoel Casco, e Filippa da Gama. Como se visse livre do vinculo conjugal por morte de seu marido com quem fora casada anno e meyo anhelando a estado mais perfeito fundou na cidade de Evora hum Recolhimento intitulado do Salvador do Mundo onde recolhida com algumas companheiras de que erão as principaes Catherina de Aguiar, e Brites Cordeira observavão a Regra de S. Francisco sendo seus Directores os filhos d'este grande Patriarcha. Ao tempo, que esperava da benevolencia do Cardial D. Henrique estabilidade para o novo edificio foy demolido por sua ordem para mayor extensão do Collegio dos Padres Jesuitas ordenando às Recolhidas fossem viver em casa de seus parentes até lhe fundar outra habitação. Com excessivo sentimento deixou Joanna da Gama o lugar, que o seu espirito elegera para se dedicar a Deos, fallecendo a 21 de Setembro de 1586. Jaz sepultada na Igreja da Misericordia de Evora em sepultura propria. Compoz.

     São poucos os historiadores que se dignam falar da literatura Joana da Gama, «por consideram uma escritora menor.» No entanto a sua obra, muito pessoal, surge num período decisivo no que diz respeito à promoção feminina em Portugal, porque nos Cancioneiros da poesia medieval não há indício nenhum da existência de mulheres poetizas, e o amor foi um tema de predilecção.
     No fim do século XV as coisas vão mudando e no primeiro quarto do século XVI, modificaram-se as mentalidades da nobreza e da plebe mais instruída. As senhoras da nobreza, sobretudo as que frequentam a corte progridem, em torno das rainhas D. Leonor, mulher de D. João II, de D. Maria, esposa de D. Manuel I, e de sua filha mais nova Infanta D. Maria de Portugal- duquesa de Viseu. E, um grupo de senhoras instruídas da nova geração que pretendem ser iguais aos homens, e tratam de adquirir uma cultura humanista, chegando a estudar literatura línguas e artes, e algumas tentam viver da sua pena.
     Entretanto o grande impulsionador da cultura portuguesa, Garcia de Resende (1516), não se sabendo se na cidade Lisboa ou Évora, nomeia entre cerca de 300 poetas de um Cancioneiro vinte cinco damas, salvo erro.


Joana da Gama, não era uma dama da corte nem uma mulher muito culta. Provavelmente viveu quase toda a sua vida na "província", em Évora. Mas teve a sorte de gozar de uma independência excepcional. O facto de ter vivido em Évora deu-lhe a incidência de uma grande formação. Évora deixara de ser uma Cidade provinciana, sendo muitas vezes visitada por gente da corte: Infanta D. Maria de Portugal; Cardeal-Infante D. Henrique que ali residiu depois de ter sido nomeado arcebispo, apesar de se comportar como um mecenas, favorecendo a literatura e as artes.
      Uma das informações sobre a escritora é, obviamente um testamento assinado por Joana da Gama, conservado no Arquivo da Misericórdia de Évora. Tito de Noronha, que editou a obra de Joana da Gama em 1872, indica um manuscrito conservado na Biblioteca de Évora onde é qualificada como solteira, embora a aprovação do testamento diga que é viúva. Talvez Tito de Noronha não tenha visto ele próprio os documentos citados, e tenha utilizado uma transcrição incompleta. Não sendo assim, ele teria falado com certeza duma disposição particular do testamento, cujo original se perdeu.
O texto que se encontra no Arquivo do Distrito de Évora é uma cópia, com letra muito cuidada e data de 14 de Abril de 1597. Abre com esta declaração:


     Em nome de Deos Amen. Saibão os que esta cedola e testamento, e ultima vontade virem como eu Joana da Gama beata por não fazer profissão e estar sempre na posse de minha fazenda posso testar della e por não saber a çerteza da hora em que nosso Sñr me querera levar desta vida prezente sendo moradora nesta çidade de Evora estando sãa e em meu perfeito juizo e entendimento temendo a morte faço e ordeno esta minha çedola e testamento nesta maneira seguinte.

Públia Hortência de Castro

Públia Hortência de Castro
 Vila Viçosa, 1548 - Évora, 1595?

     Públia Hortência de Castro, primeira mulher licenciada e que falou em público, perante os homens mais eruditos do seu tempo.
     Na sua terra natal aprendeu as primeiras letras. Devido à inteligência e capacidade demonstrada, foi estudar sob a protecção do seu parente Arcebispo D. José de Melo, que a matriculou Universidade de Évora no curso de filosofia ainda com 17 anos de idade. Que já assombrava com as suas capacidades de raciocínio os seus doutos professores.
     Em 1571, prestou as provas finais para alcançar o grau de licenciada, tendo ficado célebre a sua argumentação, que impressionou fortemente as doutas personalidades que a inquiriram. André de Resende, seu mestre, que rendeu-se às qualidades da sua discípula espantado com a sua capacidade demonstrada. Mais tarde passou a estudar com o seu irmão na Universidade de Coimbra tendo aí estudado Retórica, Humanidades e Metafísica.
     Depois começou a defender as suas teses sujeitando-se a todas as críticas e interrogações. Embora tivesse publicado sob a cobertura do anonimato, é a primeira mulher com obra original em língua portuguesa de que há conhecimento.
     A grande capacidade cultural de Hortência de Castro chegou á corte portuguesa, e passou fronteiras, e chegou à Infanta Maria de Portugal, como sua leitora, com também passou a conviver nos Paço Real de Évora, e no Paço ducal De Vila Viçosa, palco de debates literários tertúlias, saraus de poesia, música e teatro, onde apareciam nobres de várias cortes europeias. Que competia com os maiores centros de cultura:
escorial de Paris e Bolonha. Depressa espalhou a notícia do prodígio, por entre os sábios estrangeiros dos círculos culturais de Espanha, França e Itália, que causou assombro e despertou a curiosidade das mais insignes figuras da época.
     Os Ditos de Hortência de Castro, trovas, vilancetes, sonetos, cantigas, romances, foram publicados, segundo se crê, pela primeira vez antes de ser monja, e depois, com reflexões morais.
     Como aconteceu com todas outras mulheres, antes e depois dela, geralmente ignoradas ou desprezadas pelos historiadores da filosofia e da literatura, com mais motivos de desinteresse do que desatenção como pareceram revelar
     Com o desastre de Alcácer-Quibir, e com o falecimento da infanta Maria de Portugal ocorrido á um ano atras, a cidade de Évora ficou nas mãos dos jesuítas e da santa inquisição. Públia com os seus 33 anos, solteira sem fortuna e poder, a sua cultura de nada servia no meio da magistralidade da igreja.

     Num alvará da torre do tombo datado em 1581, Públia Hortência de Castro, que continuava solteira recebe, do rei Filipe I de Portugal 15000 reis de tença anual para se sustentar e recolher-se no mosteiro dos Agostinhos de Évora com a sua solidão a escrever versos com cariz filosófica e religiosa. Faleceu no mosteiro com quarenta e sete anos, encontrando-se no mesmo lugar sepultada.

Poeta D. Afonso Sanches

    Poeta D. Afonso Sanches (24 de maio de 1289-02 de Novembro de1329) foi um nobre trovador, filho bastardo (depois legitimado) e predilecto de Dinis I de Portugal, havido de Aldonça Rodrigues Talha, e pretendente ao trono português.
     «A obra poética de Afonso Sanchez apresenta características das mais singulares dentro do âmbito da lírica galaico-portuguesa. As nove líricas d’amor inscrevem-se, quanto à textura formal, no número das mais requintadas do género, como exemplos de cantigas de mestria à maneira provençal. Com efeito, os temas, a estrutura métrico-estrófica e a retórica revelam um poeta culto e conhecedor da tradição poética, embora capaz de variações por meio do registo irónico que, na última cantiga, adquire um aberto carácter de troça do formalismo trovadoresco.»

    Várias cantigas de amor de Afonso Sanches são agora consideradas de grande qualidade, realçando-se a perfeição da sua tenção com Vasco Martins de Resende, um dos seus escárnios de amor e a paralelística que traz a sua assinatura.
     O seu tema quase único era o amor. Um amor no geral sem correspondência, apesar da grande coita (dor de amar e não ser correspondido) que provoca, da sinceridade e empenho com que o vive o trovador. Compreensivelmente, o núcleo principal da sua obra foi constituído pelas cantigas de amor.
A cantiga de amor era uma forma bastante fixa, em certo sentido comparável ao soneto, até no tamanho. Mas ao contrário deste, muito fixo ao nível de versificação e muito livre em relação ao tema, esta cantiga era bastante fixa relativamente ao tema e oferecia certa margem de liberdade ao nível da versificação.

     Afonso Sanches tem várias cantigas dentro do esquema da cantiga de amor ao modo provençal; mas tem outras, ditas fragmentárias, que com bastante clareza se afastam dele. 
     Tematicamente, estas cantigas insistem no serviço amoroso. Como é da convenção, o poeta assume uma atitude de grande humildade frente à senhora que, no seu caso, parece ser sempre solteira – refere uma vez «huna donzela que ey por Senhor», outra vez «a donzela/ por que trobei» e, numa cantiga fragmentária de amigo, menciona-se «a donzela por que sempre trobou» certo apaixonado. Tece-lhe o elogio, mas um elogio genérico, sem particularização nem sequer ao nível psicológico-moral, quanto mais a nível físico, como era da norma. O trovador pode dirigir-se à senhora, declarar-lhe a sua «coita mortal», pode defender-se de «muitos» que lhe assacam que ele está a receber favores da amada, mas é sempre uma retórica à volta de uma paixão que não se consuma.

     Estes poemas originalmente seriam de grande perfeição formal; nas versões em que chegaram até nós, apresentam às vezes falhas que desmotivam a leitura. As cantigas a que chamam fragmentárias – apesar de, em termos temáticos, terem um evidente fechamento e de as suas estrofes obedecerem, quase sem excepções, ao mesmo esquema rimático e métrico - são, em certo sentido, mais convincentes.

Frei Miguel da Cruz - Inquisidor


Frei Miguel da Cruz - Inquisidor


     De madrugada ao nascer do sol, saía um fumo espesso dos campos, e um inebriante mau cheiro vindo do rio tejo a fazer-se sentir entre o incenso dentro das igrejas.
     Os jardins do palácio da Ribeira eram palmilhadas por aparições, ditas por quem os podia ver entre as estátuas e bancos de pedra. Referidos pelos rústicos, a meretriz, o tecelão e o menestrel.
     Os frades rodeavam-se com os fiéis mais íntimos. Grupos de mulheres passavam o seu tempo em leitura de oração, aliviar os padecimentos da alma e os males do corpo. O único frade de boa saúde que professava igualmente a profissão de cozinheiro no mosteiro, de faces coradas do lume do braseiro da cozinha, limpava as suas mãos trémulas ao avental.
O mosteiro num dos seus cantos recatado com duas salas , davam apoio aos peregrinos , doentes e a todos que precisassem de mercês de hospedagem , na cura do corpo amparo das almas.
     Os médicos e os físicos aliviavam os achaques da população com unguentos, xaropes e clisteres.

     Frei Miguel da Cruz vivia com alucinações dos seus veredictos, actos de fé do tribunal inquisitorial por si aclamado. Ouvia os gritos dos que por si foram condenados. Com o corpo debilitado, mal andava a não ser a um desconforme de ritmo compassado. As Lagrimas corriam-lhe pelos cantos dos olhos com um fio de baba entre os lábios.
     Diziam os seus companheiros que o frei fora condenado por todos os judeus conversos, hereges, mouriscos, blasfemos e feiticeiras com a força do demónio a corroer-lhe o corpo aos poucos, sem que já conseguisse abrir a boca para pedir perdão.
     O frei ajoelhava-se lajeando o frio da igreja da Sé de Lisboa, com uma cruz entre os dedos a murmurar palavras entrecortadas!
     À noite ouviam-se as carpideiras a velarem os mortos, entoando as suas ladainhas em voz baixa. Estas que se dizia fazerem feitiços e encantamento no secreto sossego da noite.
      Desde que se tornara freire que enchia o peito de ar pondo-se em bicos de pé, arregalava os olhos na sua altivez com o rosto encarniçado, gritando para lhe serem solicitados os seus pedidos à divindade. Fraco com um copito de vinho a mais ou com o sangue vivo no rosto da aguardente de medronho que o anestesiava, e que ao segundo copo bebia a goles com as suas mãos tremulas, e a balbuciar.

     «O frei morreu tolhido das mãos que lhe tremiam tanto, que nem conseguia levar a sopa à boca. Morreu sozinho numa tristeza, sujo e roto». Como testemunhou o camareiro ao seu senhor. 

Gomes Eanes de Azurara

     Gomes Eanes de Azurara (ou Zurara), nascido depois de 1410 e morto entre 1473 e 1474, sucedeu a Fernão Lopes em 1454, e intentou continuar-lhe o plano de escrever a crónica de todos os reis portugueses até àquela data. Para tanto, acrescentou a 3.ª parte à Crónica de D. João I (também chamada de Crónica da Tomada de Ceuta, certamente sua obra mais importante, à altura das do seu predecessor). Escreveu ainda: Crónica do Infante D. Henrique ou Livro dos Feitos do Infante, Crónica de D. Pedro de Meneses, Crónica de D. Duarte de Meneses, Crónica dos Feitos de Guiné, Crónica de D. Fernando, Conde de Vila-Real (desaparecida).
      Literariamente menos dotado que Fernão Lopes, teve ainda a prejudicá-lo o facto de relatar acontecimentos mais ou menos contemporâneos, socorrendo-se apenas de testemunhos orais, embora os submetesse a escrupuloso exame. Azurara vale sobretudo como iniciador da historiografia da expansão ultramarina, com a Crónica acerca da tomada de Ceuta (efectuada em 1415). Numa linha ufanista que culminará n’ Os Lusíadas (1572).
     Seu método historiográfico difere do de Fernão Lopes em alguns pontos essenciais, e significa, até certo ponto, um retrocesso: preocupa-se com pessoas, individualidades, e não com grupos sociais, atestando uma concepção meio cavaleiresca da História, quer dizer, em que a acção isolada do cavaleiro predomina sobre à da massa popular. Além disso, já se mostra permeável à influência da cultura clássica, visível nas citações e em certos torneios fraseológicos. Tal pendor para a erudição, nem sempre bebida na fonte originária, e para ver suas personagens como "exemplos" morais, acabou por comprometer-lhe as últimas crónicas, até fazê-las descritivas e algo monótonas.

Retractando claramente a atmosfera pré-renascentista que se ia formando na segunda metade do século XV, Azurara trabalhou cerca de 20 anos. Sucedeu-o Vasco Fernandes de Lucena, que nada escreveu apesar de ocupar o cargo mais ou menos 30 anos.